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Dia do poeta

4 out

Sempre gostei de ler poesias e, para comemorar o dia do poeta, publico a minha favorita do meu poeta favorito.

Soneto de Fidelidade

“De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

(Vinícius de Moraes)

Bjs

Nanda

“O Boca do Inferno”

8 maio

Quem nunca ouviu falar do poeta Gregório de Matos Guerra (1636-1696), também chamado de “O Boca do Inferno”? Ele ficou conhecido como o primeiro poeta brasileiro a escrever poesias líricas, satíricas, eróticas e religiosas.

Apesar de ter vivido após o fim da idade média, vemos aqui como ele foi avançado para a sua época com um dos poemas mais conhecidos no estilo erótico.

Necessidades Forçosas da Natureza Humana

“Descarto-me da tronga, que me chupa,

Corro por um conchego todo o mapa,

O ar da feia me arrebata a capa,

O gadanho da limpa até a garupa.

Busco uma freira, que me desentupa

A via, que o desuso às vezes tapa,

Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,

Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.

Que hei de fazer, se sou de boa cepa,

E na hora de ver repleta a tripa,

Darei, por quem mo vaze toda Europa?

Amigo, quem se alimpa da carepa,

Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,

Ou faz da mão sua cachopa.”

Tradução:

Tronga – Mulher que ganha a vida na prostituição;

Gadanho – Garra, unha;

Garupa – Anca; bunda;

O bolo rapa – No jogo de cartas, o ato de levar todas as cartas, a sugerir que a freira o satisfaz plenamente no sexo;

Chalupa – As quatro cartas de maior valor no baralho, revelando sorte grande;

Cepa – Estirpe, origem, linhagem;

Alimpa da carepa – Melhora de posição, sai da miséria;

Cachopa – Moça, rapariga.

Viram como ele era arrojado?

Bjs

Nanda

A Alvorada do Amor

18 jan

Li esse texto em um livro de poesias e me encantei com as belas palavras,

“Um horror grande e mudo, um silêncio profundo

No dia do Pecado amortalhava o mundo.

E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo

Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,

Disse:

“Chega-te a mim! entra no meu amor,

E à minha carne entrega a tua carne em flor!

Preme contra o meu peito o teu seio agitado,

E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!

Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,

Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação

Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…

A cólera de Deus torce as árvores, cresta

Como um tufão de fogo o seio da floresta,

Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;

As estrelas estão cheias de calefrios;

Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,

Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!

Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;

Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;

Surjam feras a uivar de todos os caminhos;

E, vendo-te a sangrar das urzes através,

Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés…

Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,

Ilumina o degredo e perfuma o deserto!

Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,

Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:

– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,

Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,

Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!

Rosas te brotarão da boca, se cantares!

Rios te correrão dos olhos, se chorares!

E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,

Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,

Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste

O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,

– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!” “

Olavo Bilac, in “Poesias”

Espero que tenham gostado.

Bjs

Nanda

Adiamento 

22 set


Compartilho com vocês uma poesia encantadora que gosto muito e, com certeza, nos faz refletir sobre o passado, presente e futuro.

“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não… 
Não, hoje nada; hoje não posso. 

A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, 
O sono da minha vida real, intercalado, 
O cansaço antecipado e infinito, 
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico… 
Esta espécie de alma… 
Só depois de amanhã… 

Hoje quero preparar-me, 
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte… 
Ele é que é decisivo. 

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos… 
Amanhã é o dia dos planos. 
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã… 

Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro… 

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. 
Só depois de amanhã… 

Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana. 
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância… 
Depois de amanhã serei outro, 
A minha vida triunfar-se-á, 
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático 
Serão convocadas por um edital… 
Mas por um edital de amanhã… 

Hoje quero dormir, redigirei amanhã… 
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? 
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo… 
Antes, não… 

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. 
Só depois de amanhã… 

Tenho sono como o frio de um cão vadio. 
Tenho muito sono. 
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã… 
Sim, talvez só depois de amanhã… 

O porvir…
Sim, o porvir…”
Fernando Pessoa



Bjs



Nanda

Além do tempo

25 jan

  
Simplesmente, lindo!!!!

“É hora de colher e de plantar para o futuro. Por isso, fica permitido aos novos tempos dizer: “Eu te amo”. Uma vez pela manhã, outra pela tarde e outra pela noite, no mínimo. 

Fica estabelecida uma nova lei, a lei do amor. E fica permitido conhecer a verdade da vida, a ausência da morte e a eternidade da Alma. 

Fica permitido dizer obrigado, por favor, com licença.

E fica permitido entender que o erro é estágio da evolução. E, principalmente, fica totalmente permitido PERDOAR e SE PERDOAR. 

Fica permitido poupar água, compartilhar comida, cuidar dos enfermos, do corpo físico e espiritual. 

Fica permitido a presença de irmãos iluminados, levando luz e amor nos hospitais, nas escolas e nos centros de recuperação física e espiritual. 

Ficam permitidos o bem, a paz, a compaixão e a caridade. 

E revogam-se todas as permissões em contrário.”

Bjs

Nanda 

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